Sexta-feira, Setembro 24, 2004

[continuação]

E a voz que de dentro de mim floresce sussurra aos ouvidos do vento que a luta interior contra o medo de ficar-se só não passa de uma mera estratégia da mente.

Confunde-nos. Assusta-nos. Repugna o nosso apreço, a benquerença que lavramos por nós mesmos. Fecha-nos nas entranhas de uma prisão longínqua e pardacenta, da qual não escapamos com temor de nos perdermos na floresta densa, cerrada em intimidade com o nevoeiro proibido.

Deixo-me naufragar, deixo que o meu intelecto se perca de uma vez por todas nesta sumptuosa solidão. Permito-me.

Arrebato este momento único com a minha veloz sinceridade e atravesso intensamente o toque suave da unicidade. Estou assim, só, e é bom ser-se único, é bom viver um só momento...estando-se só. Navego.

[Quantas são as pessoas que se desinquietam com a abordagem inerte da solidão? Quantas são as pessoas que lacrimejam, solitárias, trepides por sozinhas estarem a chorar, não aceitando o apartamento que no fundo tanto necessitam? Quantas são as pessoas que procuram a balbúrdia para camuflarem a insanidade que sentem, quando num quarto branco se perdem nas cores? Quantas são as pessoas que precisam de ti e de mim para se procurarem a elas, para descobrirem em cada ensejo a unicidade que o distingue. A solidão. A voz do coração, a voz do Altíssimo, grave, advogando : Não tenhas medo. Eu estarei sempre contigo, mesmo quando o deserto te assolar. Não tenhas medo. Seremos tu e seremos eu e seremos o mundo em nós porque mesmo sozinho a beleza é inultrapassável. A beleza de amar o silêncio. A beleza do eremitério?]

Quarta-feira, Setembro 15, 2004

Único...

[A singularidade de um momento, de um olhar, de um toque, de um pensamento, de um sorriso, de uma chegada, de um Adeus. A particularidade da unicidade da singularidade.]

Um refúgio. Um cais. Uma canoa atracada.
Um abrigo. Uma brisa. Um silêncio esquecido.
Uma porta. Uma travessia. Uma mudança.

Revelação, espontaneidade. Por detrás de uma só gota de chuva, um imenso arco-íris cintilante. Por entre um vendaval inesgotável, um girassol que sorri hirto para o sol, saboreado cada raio como se do último se concertasse. Dentro de um mar exasperado, uma onda calma e deleitosa esgaravata o corpo delicado de uma mulher nua.

Uma coisa má implica sempre algo de positivo, por muito que, aos nossos olhos, pareça exígua. E tantas vezes a iniquidade cega-nos e proíbe-nos de visualizar as cores fluorescentes que se concebem para além do negro, da infinita escuridão.

Julgamos estar a morrer de sede num deserto dourado quando afinal nos afogamos sem piedade num pequeno braço de mar, num oásis que fantasiamos não existir.

Passos. Uma porta que fecha escondendo mil e um segredos. Um desconhecido que se achega murmurando aquele silêncio pungente de quem nada tem a proferir.

Passos. Cada vez mais remotos. Uma melodia que alguém dedilha lentamente, tantas vezes se esquecendo dos acordes que a compõe.

Um adeus.

A solidão. Não a nego, antes pelo contrário. Inculco-me a mim própria.

[continua...]


Terça-feira, Setembro 07, 2004

Silêncio que não incomodas...

[O silêncio entre duas pessoas deixa de incomodar quando ambas se conhecem e se amam plenamente. Invade o território escondido de cada um, pois o vazio das palavras assemelha-se ao oceano profundo de segredos.]

Shiuuu...lê a minha mente, limita-te a ler. Não precisas da minha voz para saberes como me sinto, o que quero, o quanto te anseio e amo. Apenas lê. Decifra o silêncio que te desamparo nesta sala negra, sozinho, só o silêncio. Aprende.

Os teus olhos encontram-se com os meus na esquina do olhar e se apaixonam pelas confidências silenciadas que as ruas da amargura despertam. Essas ruas onde o silêncio naufragou concomitantemente com a beleza da entrega de um simples olhar...naufragou para não mais regressar.

Shiuuu...não pronuncies absolutamente nada. Fecha os olhos e ausculta o sussurro da nossa respiração, o pular frenético de um coração que te acompanha em cada compasso.
O silêncio, apenas o silêncio. Não o acorde de uma melodia perdida nas malhas do tempo. Não o suspiro desprendido de um corpo feminino abandonado. Nem o bater vitorioso das asas de um pássaro que combate o medo do primeiro voo. O silêncio. Apenas esse e não o sapateado das vidas que nos rodeiam. Nada. Só o vazio. Só o eco dos nossos corações mais estrepitosos que nunca. Só tu e eu com o silêncio entre nós, não arquitectando uma barreira inultrapassável mas sim sustentando uma ponte, um elo entre dois mundos frívolos.

Não incomoda.

[O silêncio transparece sempre os mais sinceros sentimentos, as mais sentidas declarações, os mais puros e inocentes olhares...é no silêncio que se ouve a voz do outro, o murmúrio do coração alheio. É no silêncio que nos escutamos a nós próprios, o burburinho da voz da consciência]